Carrinha Bedford (3)

El Rei D. João I concedeu, em 1392, a «Carta da Feira» àquela que era, na época, a Feira Franca de Viseu, mais tarde renomeada para a que é hoje a mítica Feira de S. Mateus, uma das mais relevantes em Portugal e que conta já com mais de seiscentas edições.

Inicialmente realizada em maio e mais tarde em abril, no dia de S. Jorge, o santo padroeiro dos cavaleiros e das cruzadas, a feira passou a realizar-se em setembro, por altura do dia de S. Mateus – 21 de setembro, em data incerta que alguns historiadores atribuem ao século XVI. Hoje, a Feira de S. Mateus é realizada entre os meses de agosto e setembro, e durante cerca de quarenta dias oferece o melhor de Portugal a quem a visite, sendo um evento muito especial para os emigrantes que nesta altura do ano regressam às origens. Todos os anos se reúnem, na cidade de Viseu num recinto com mais de 75 mil metros quadrados, cerca de um milhão de pessoas num grande evento de cariz popular, cultural, económico e gastronómico.

Mas nem sempre foi assim. O evento passou por períodos conturbados: dificuldades que decorreram de tempos de crise ou motivadas pela diminuição da utilidade da feira enquanto mercado devido às alterações nas dinâmicas do comércio, o evento sofreu também com a falta de um projeto local de revitalização. Mas a vontade do homem e a história – sempre a história! – falaram mais alto e, no início do século XX, o executivo municipal deu uma nova vida à feira. Desde então, o recinto foi ganhando uma nova dimensão, a oferta ampliou-se substancialmente, as áreas de exposição foram ocupando espaço e uma clara aposta na conquista de novos públicos e a reconciliação com história da feira trouxeram novas tradições: a iluminação artística, a Marcha das Aldeias, os bailes do Salão de Chá dos Bombeiros Voluntários, o caldo verde e, claro, as enguias.

As enguias, essa iguaria que é já um símbolo da Feira de S. Mateus, fazem parte da história deste evento desde antes da fundação da Comur, em 1942. Pela necessidade de escoar o excedente de enguias que eram capturadas pelos pescadores na Ria de Aveiro, as mulheres da Murtosa fritavam-nas, conservavam-nas em molho de escabeche e levavam-nas para as feiras – uma importante fonte de rendimento para as famílias. O facto de no interior o acesso ao peixe ser muito reduzido, fez com que esta iguaria fosse ainda mais apreciada pelos visitantes da feira, que sabiam que ali as poderiam encontrar. E na década de 40, sendo a Feira de S. Mateus a mais importante da região, era, por isso mesmo, um destino óbvio para as enguias da Murtosa. A Comur surge precisamente com a intenção de organizar esta atividade da venda das enguias. E ao longo destas quase oito décadas, a Comur foi conquistando o seu espaço na Feira de S. Mateus, sendo hoje uma das principais atrações deste evento anual. Em 2020, numa carrinha Bedford dos anos 70, restaurada e com as cores da Comur numa homenagem ao passado, reinventámos uma nova forma de apresentar as enguias ao mundo, com a receita e o sabor de sempre.

As enguias da Comur continuam a ser consideradas uma das iguarias mais especiais que Portugal tem para revelar ao mundo. Nos meses de agosto e setembro, sobem ao palco e brilham saborosamente na Feira de S. Mateus, com alma conserveira e memórias partilhadas por muitos portugueses. Mas estão aqui, para si, todo o ano.

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