«Eu, as minhas duas filhas e a minha neta.» É assim que uma das mulheres da Murtosa traz a Comur no coração. Saudosa e nostálgica, ciente do peso das gerações, o sangue conserveiro corre-lhe nas veias desde os tempos cujo berço era ainda o ventre da mãe.

Num tempo em que as mulheres se cingiam à vida doméstica, ao encargo da casa e da educação dos filhos, e os maridos se faziam ao mar e à Ria de Aveiro, vulneráveis à vontade da natureza na busca incessante de uma vida melhor e mais digna, os dias duros passavam, um após o outro, na rotina que conheciam. A semana de trabalho era interrompida pelo ritual da missa, de traje domingueiro, e para os encontros com a família, que, por entre cantigas populares, romarias, namoros à janela e conversas aprazíveis, ofereciam horas felizes.

Os invernos mais chuvosos presenteavam a Ria com abundância de enguias, o que configurava uma oportunidade de rendimento para as famílias, mas também um desafio, pelo facto de as enguias, mesmo depois de fritas para garantir maior durabilidade, serem, ainda assim, um produto perecível e com um prazo de validade reduzido.

Na década de 40, com os problemas económicos agravados pela Segunda Guerra Mundial, a procura das enguias fritas intensificou-se, e as «Fritadeiras da Murtosa» fritavam enguias em casa, que iam depois levar a Viseu, montadas em burros. Movidas pela necessidade, começaram a organizar-se num pequeno grupo, adicionando às enguias fritas um molho de escabeche que preservava por mais tempo a iguaria, e que armazenavam em barricas de madeira para exportar e alimentar as tropas. Eram um manjar sobejamente apreciado, sobretudo para quem estava na frente de batalha, com acesso a raros confortos e com poucas perspetivas de dias melhores.

E assim nasceu a Comur, inaugurada a 7 de novembro de 1942, pela mão e pela vontade de gente corajosa, que precisava de garantir a sobrevivência – sua e dos seus, e cuja necessidade levou a que hoje, quase oito décadas depois, cerca de 30 variedades de conservas se apresentem ao mundo de forma original, autêntica e sobretudo com muitas honras ao passado, numa grande homenagem às mulheres da Murtosa.

«Amanhar as enguias era à mão, amanhar a sardinha era à mão, tirar a espinha à sardinha era à mão, fazer os filetes das trutas era à mão, arranjar o polvo era à mão…». E hoje não é diferente: é à mão que todo o peixe que entra na Comur é tratado e glorificado pelas sábias mãos de sempre, que nunca as máquinas conseguirão superar.

«Eu não queria feriados, não queria domingos, não queria nada. Queria a fábrica. A fábrica!», exalta-se, emocionada e de voz embargada, uma veterana da Murtosa, deixando que o silêncio que se segue e os olhos cujas lágrimas teima em segurar, exprimam o resto. E, sem ter dado conta, a Comur é parte de si, é um órgão vital. É onde guarda as memórias e sorri o coração.

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