Mestre Zé carrega na pele as marcas dos anos passados no mar. E nos olhos as histórias que a vida lhe foi ensinando, cravadas na intensidade do olhar, que contrasta com uma curiosa simplicidade. Esta podia ser uma fábula de espuma e mar rimada com a vida real. Mas não. É mesmo, apenas e só, o relato da vida dura de um homem do mar, que nunca teve muito, mas sabe que teve sempre tudo.

Sentado na areia de olhos postos no mar – sempre o mar! -, encurvado pelo tempo e de feições esculpidas pelo sal do mar e pelo sol escaldante de tantos anos ali passados, Mestre Zé cumpre a tradição: barrete preto com borla, camisa de flanela axadrezada de mangas folgadas e calças seguras pela faixa preta enrolada seis vezes à volta da cintura. O traje nazareno é já uma extensão de si. Os dedos das mãos vão calcorreando a areia, como se desenhasse a sua história ao mesmo tempo que a vai contando, devagar, enquanto os pés se enterram e desenterram sucessivamente na areia, numa sensação que lhe mantém vivas as memórias da infância.

Recorda esses primeiros anos, ora a correr no imenso areal da praia da Nazaré, descalço e feliz, ora remendando as redes para a faina seguinte enquanto esperava, com as mulheres e mães sofridas sentadas na areia com as suas sete saias, o regresso dos heróis. E, anos mais tarde, era já um deles: um lobo do mar.

Ao alívio da chegada dos barcos e dos pescadores, seguia-se o ritual de puxar os barcos para a areia com a ajuda das juntas de bois e a força de braços dos muitos que ali se juntavam para assistir ao sucesso da pescaria. Pouco depois, ainda saltitando nas redes, os carapaus, as cavalas, as sardinhas, as douradas, as corvinas e os polvos saíam da praia, estendidos nas canastras que seguiam pelas ruas estreitas, apoiadas em rodilhas na cabeça das peixeiras que entoavam pregões de varina como só as nazarenas sabem fazer. Para, logo a seguir, a história se repetir.

Ao imaginário do passado pertencem também as expectativas do futuro. Mestre Zé olha o mar como se adivinhasse uma Nazaré cheia de vida, apesar de agora a reconhecer um retrato turístico, onde algumas tradições insistem em ficar. Hoje, o peixe vende-se na lota já sem a poesia das varinas, e a magnitude das ondas dita o sucesso da vila. Mas o velho lobo do mar, ingénuo e supersticioso, continua a carregar no timbre da voz a sua vocação e o seu destino, repetindo que «agora nada é».

Do alto da sua mestria na arte xávega e dos seus 78 anos – tantos quantos a Comur, entre sorrisos e evasivas de quem sabe que teve sempre tudo, Mestre Zé é um homem saudoso e feliz, mesmo ignorando que a indústria conserveira – e em especial a Comur -, lhe traz com a frescura e o sabor de sempre, os carapaus, as cavalas, as sardinhas, as douradas, as corvinas e os polvos, homenageando as suas origens e reescrevendo a história do mar português.

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