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O Alentejo, onde sol doura os campos de trigo cujas espigas ondulam ao sabor do vento, é uma tela delicada onde tudo é tranquilo, e casto, e sonhador – assim, ou quase assim, versejava Florbela Espanca.

Num espaço onde o tempo não tem lugar, grupos de amigos reúnem-se à mesa, nos alpendres das casas típicas alentejanas. Caiadas de branco com faixas azul e amarelo a vincar as superstições de antigamente, a sombra do espaço aberto sem paredes oferece o conforto dos fins de tarde aos que brindam à amizade, mesmo sem o saber. À volta do petisco, um copo de vinho dá espaço à inspiração para a poesia que se segue.

Na gramática de coentro e cal de Manuel Alegre, cabe o mundo da açorda de alho alentejana.

Nesta receita é o alho que tem o papel principal. Originária de um prato árabe – tharid, a tradicional açorda de alho alentejana é feita com pão, de preferência caseiro e duro, demolhado num caldo de água quente aromatizado com coentros previamente pisados num almofariz, onde se reduziram a papa e aos quais se adicionam dentes de alho, sal grosso e azeite.

A conserva de mexilhão fumado em azeite, a combinação perfeita que sugerimos para a açorda de alho nesta arte de fazer obras em verso, vem sacudir esta instituição da gastronomia alentejana e adicionar um toque de sublimação com um sabor inesperado de mar. O mexilhão, ele próprio uma poesia estética desenhada pela natureza e pleno de sabor, elevado pela Comur ao expoente dos fumados, em nada desprimora a açorda. Pelo contrário – só a acrescenta.

Um marisco humilde e resistente, que, por mais que o mar bata na rocha, ali permanece com uma determinação de quem quer acabar num petisco grandioso, reúne-se com outro humilde ícone, a açorda, a celebrar a amizade nos alpendres do Alentejo, sob o deleite dos convivas.

A açorda é, para lá das fronteiras do Alentejo, o prato mais conhecido da gastronomia alentejana, que vai à mesa do pobre e do rico com o mesmo requinte popular. E é no mistério da sua imensidão, onde o tempo caminha sem chegar, de Miguel Torga, que o Alentejo é o cenário perfeito para a declamação desta poesia da açorda de alho que verseja encantadoramente com o mexilhão fumado em azeite, da Comur.

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